A Cidade De Abadiânia


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Estudos de Casos de "Cirugia Espiritual" em Abadiânia

Apesar de pouco estudadas cientificamente, as 'cirurgias espirituais' têm gerado grande intersse da mídia e da população em geral. Só no ano passado foram divulgads várias reportagens sobre o assunto em jornais, revistas e em programas de TV. Algo que nos chamou a atenção foi que, refletindo a controvérsia existente na sociedade, essas reportagens apresentavam visões conflitantes entre si.

É possivel notar que a maior parte dos coneitos emitidos sobre o assunto provém de opiniões preconcebidas, favoráveis ou desfavoráveis, moldadas nas convicções pessoais de cada um.

Até mesmo os espíritas vêem com reservas as "cirurgias espirituais"devido à escassez de pesquisas científicas e à expressiva presença de criminosos charlatães. Chico Xavier disse ser contra "essa historia de caniveto no corpo dos outros sem ser médico". Raul Teixeira afirma a existência da mediunidade curadora e da mediunidade cirúrgica, mas se diz preocupado com a "signifcativa presença de charlatães exploradores do excesso da crença e particularmente da crença sem conhecimento".

Segundo Marlene Nobre, presidente da Associação Médico-Espíritado Brasil, muitos dos médiuns de cura são vistos com reservas pelos espíritas, devido à falta de estudos mais apronfundados sobre o tema.

Embora milhares de pessoas sejam tratadas em todo o mundo por essa via heterodoxa, muitos pesquisadores se recusam a estudar o assunto, alegando que tudo não passa de simples fraude - os cortes seriam truques, o sangue extraído dos pacientes seriam, na realidade, de vísceras de animais - e essa idéia é reforçada pelo fato de os "cirurgios espíritas"de todo o mundo não permitirem que os materiais retirados sejam leados para estudos em laboratório.

Diante deste quadro e compreendendo que a Ciência não pode se omitir diante de uma fato de tais proporções, resolvemos - através do Serviço de Patologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora - realizar estudos mais aprofundados sobre a questão. Tivemos por objetivo definir se tais fenômenos são apenas fraudes ou se há algo de real que necessita ser mais bem estudado.

Para responder a esse objetivo definimos por estudar o médium goiano, João Teixeira de Farias, que atende na cidade de Abadiânia - GO.

Foi escolhido por atender diariamente a centenas de pessoas, por ser constantemente citado pelos meios de comunicação e por ter tratdo pessoas de destaque internacional como a atriz americana Shirley Maclaine e o presidente do Peru, Alberto Fujimori. O médium tem apenas instrução escolar de nível primário e é proprietário de uma fazenda em Anápolis - GO. Possui personalidade forte, sendo muitas vezes impulsivo e rude.

Os esíritos que se manifestam possuem comportamentos variados: alguns são dóceis e amáveis; outos são ríspidos e mal-humorados.

O médium atende em uma instituição que não se intitula espírita, como de fato não é, mas sim ecumênica.

Diariamente chegam excursões de todas as partes do Brasil e todos os necessitados são atendidos gratuitamente, mas geralmente é prescrito um preparto à base de ervas ao custo de três reais o frasco - cada pessoa, na maioria das vezes, necessita mais de um. Há também distribuição gratuita de uma sopa a todos que desejarem.

Todas as pessoas são atendidas - segundo informações - por um dos vários espíritos que se manifestam através de João Teixeira de Farias. Os pacientes recebem uma prescrição do prparado de ervas e a indicação, se for o caso, da necessidade da cirurgia espiritual. A cura não é prometida a todos os pacientes. segundo explicações dos dirigentes da instituição, não há necessidade da realização das "cirurgias visíveis" - com cortes - pois todos os casos indicados poderiam ser resolvidos com as "cirurgias invisíveis" - em que a cirurgia seria realizada no corpo espiritual. Os pacientes é que escolhem qual tipo desejam.

Decidimos acompanhar e estudar as "cirgias visíveis", que são realizadas à vista de todos, com os pacientes de pé ou sentados. Para tanto, filmamos e fotografamos, entrevistados e examinamos os pacientes, bem como recolhemos os materiais extraídos para serem estudados no laboratório a fim de verificarmos sua autenticidade.

Apesar de não termos identificado nenhum procedimento anestésico, dos pacientes que acompanhamos apenas um relatou dor durante a cirurgia. O material utilizado geralmente são facas comuns ou bisturis. Não foi realizado nenhum tipo de assepsia.

Os precedimentos mais comuns são os raspados da córnea - parte da frente do olho - ou a introdução na cavidade nasal de pinças, em forma de tesoura, com um chumaço de algodão na ponta. Observamos também cirurgias na mama, no abdome e uma extração dentária. Houve a retirada de um lifoma - tumor benigno de gordura - de 210 grams, que estava no dorso de um paciente.

Concluímos que as cirurgias são rais e os materiais extraídos são compativéis com o local de origem, porém não são patológicos, ou seja, são tecidos normais. Fato curioso é que nem sempre as áreas operadas correspondem às queixas e sintomas dos pacientes.

Em resumo, as cirurgias realmente ocorrem não são fraudes.

Como nos foi dito que não há necessidade das "cirurgias visíveis", é possivel que essas ocorram apenas como coadjuvantes do "tratamento espiritual", aumentando a crença do paciente de que irá curar-se.

É necessário que haja outros estudos para aprofundar nossos conhecimentos sobre o tema, como a busca de uma explicação para a ausência de dor na maior parte das cirurgias e, principalmente, visando a avaliação da eficácia desse tipo de tratamento. O melhor conhecimento das práticas alternativas de saúde permite identificar aquelas perigosas, as inócuas e as de eficácias comprovada; também possibliita uma melhor identificação dos charlatães.

Surge maior empenho do meio científico sobre um assunto que diz respeito à vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

Autores:
Alexandre Moreira de Almeida - Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFJF
Tatiana Moreira de Almeida - Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFJF
Âgela Maria Gollner - Professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da UFJF